"Para as mães, pais e todos os amigos do nosso José,
Há pouco completaram-se 24 horas do momento nosso José foi embora. Às seis da tarde, horário dos anjos, ele partiu. Quero contar para voces como foi, para aquecer o coração. Foi acompanhado por mim e pelo pai. Morreu no meu colo, com minha mão sob seu peito, eu sentindo cada batida do seu coraçãozinho, o pai segurando sua mãozinha e com o calor do meu corpo esquentando o seu tão debilitado corpinho. Foi com muito respeito, dignidade, e muito, muito amor. Fui conversando com ele, falando coisas boas, falando sobre esta viagem que ele ia fazer. Pedi para que ele procurasse os amigos do plano espiritual, os mesmos que o ajudaram a chegar, pois certamente estariam ali para levá-lo para a luz. Com a mesma energia de amor e paz que chegou, que foi parido, José foi embora. Meu bebê estava muito cansado. Todas as mães conhecem seus bebês, e quando cheguei ontem ao hospital logo entendi o recado que ele estava dando, ele estava dizendo que cansou, que não queria mais lutar, não queria mais ficar, que tinha terminado seu período aqui com a gente. Ele falou pelos poros, pela pele, mais claro do que com palavras. Mas eu entendi e Lufe também. Não deixou dúvidas. Pediu para ir. Pedi para os médicos que respeitassem o bebê, que não segurarem além da conta aquele menino que estava tentando partir. Eles já vinham sinalizando isso e foi uma decisão conjunta. Falamos para colocarem no nosso colo. Fomos muito respeitados e tivemos o privilégio de nos despedir do nosso filho com privacidade, calma e tranquilidade. . Foi batizado ali mesmo.
Primeiro, Lufe pegou no colo, pela primeira vez, e conversou muito, beijou muito nosso nenezinho. Quando veio para mim, abracei e disse: pode descansar, José, aqui no colo da sua mamãe. E assim foi. Ele foi se desconectando devagar, no tempo dele. Dizíamos simplesmente eu te amo, e sinto muito por tudo isso. Lufe falava sobre como ele poderia se tornar um anjinho e vir cuidar do Pedro, seu irmão que também o amava muito. A gente agradeceu cada minuto que ele viveu aqui com a gente, agradecemos todo o esforço e sua luta pela vida, que nos trouxe tantos ensinamentos. Claro que eu queria fazer muito mais pelo meu filho. Nunca dei um banho nem troquei uma fralda. Mas dar o colo e o todo meu amor na hora de ir embora foi o que eu pude fazer e tenho certeza que desta forma ajudei esta alma a ter uma passagem sem medo. Da mesma forma que chamamos e pedimos com todo o amor para ele nascer, também me entreguei na hora que ele foi. O adeus foi um parto às avessas, como me ensinou a Fabiola. Depois que ele faleceu, eu mesma tirei o respirador, os esparadrapos, coloquei a roupinha, pela primeira e única vez. Amei tanto nestes doze dias que valeram mais do que uma vida toda. Foi um adeus humanizado, depois de um parto muito humanizado.
Pedro, meu filho mais velho, gosta muito de uma música que ele chama de “sem a tua”. Ela diz assim “como pode um peixe vivo viver fora da agua fria... como poderei viver sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia”. Hoje esta é minha dúvida. Não sei como vou viver sem esta companhia que foi tão intensa, tão presente, tão forte em nossas vidas. Meus planos para 2011 eram apenas curtir a maternidade. Agora tenho um vazio sem fim para preencher. Olho em volta e vejo um berço sem dono, um leite escorrendo sem criança pra mamar e uma mãe tão pronta, sem bebê.
Tenho que continuar respirando, comendo, dormindo, pensando, sorrindo, mesmo sem ter a menor vontade. As pessoas me dizem “o Pedro precisa de você”. Acho que hoje eu preciso mais dele. É dele que virá a energia vital para encher nossos corações, meu, do pai, dos avós. E temos uns aos outros também. Lufe se segura em mim, eu nele, e assim a gente fica em pé por um pouco mais de tempo.
Ainda é muito cedo para tentar entender ou aceitar qualquer coisa. Nem bem aceitei que ele nasceu e ele já morreu, é tão estranho. Por enquanto, continuo me sentindo muito grata ao José por ter nos ensinado tanto. Por ter me tornado uma mãe melhor, uma mulher melhor, por entender muito mais do sofrimento humano. Não há arrependimentos, não há culpas nem culpados, nem doenças, nem porquês. Apenas o destino dele, a história dele, a nossa.
Somos todos uma única energia e certamente encontrarei José de novo, em algum momento, em algum lugar. Sempre vou amá-lo, sempre será nosso filho. Ir ao enterro do meu filho hoje foi a coisa mais difícil que fiz na vida. Viver depois disso será a segunda coisa mais difícil.
E temos muita luz emanando, em meio a tanta dor. Sinto que estamos em paz. Muitas mensagens lindas que recebemos das maternas, dos amigos, da família. Muita força, muita oração. Muita gente vibrando e orando pela passagem do José Luis. Mais uma vez, tenho que dizer que nos emocionamos demais, nossa pequena família, com tanta solidariedade e com a mobilização tão verdadeira e tão intensa em torno da trajetória do nosso filho. Sou muito, muito grata por cada palavra que recebi. Me acalenta o coração sabermos que fizemos a diferença para algumas mães, que refletiram e se aconchegaram mais com seus bebês, valorizando momentos preciosos da vida. Muitas acabaram por agradecer as noites mal dormidas, o cansaço e a as dificuldades típicas do pós-parto e da maternagem, ao invés de lamentá-las. Amigos que disseram coisas tão fortes, tão importantes. Agradecemos muito, mesmo, por termos pessoas tão queridas ao nosso redor.
Nossa casa está cheia de flores brancas. Fomos de branco ao enterro hoje, talvez recebemos a mensagem telepaticamente. Ao fechar os olhos, a cada instante, entoo o mantra da compaixão e imagino uma luz branca. É isso que posso fazer agora pelo meu filho e por todos nós, pedir a compaixão.
Uma semana antes do nascimento, escrevi a carta “Pode vir, José”. Pode vir, José foi dito do fundo da minha alma. Assim como hoje eu tinha de escrever esta. Escrevendo me liberto, liberto a ele e a vocês também.
Pode ir, José.
Pode ir, José. Porque eu te amo, agora e sempre.
Camila"